segunda-feira , 18 dezembro 2017
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18/12/2017
Detentos no Ensino Superior
Uma conquista histórica, um sonho que se tornou realidade
Por: O Documento

Três presos são aprovados no Enem

CRC possui biblioteca com mais de 400 exemplares, com acervo dividido entre obras jurídicas, literatura e livros didáticos

Centro de Ressocialização possui biblioteca com mais de 400 exemplares diversificados – Foto OD

 

Muito estudo e dedicação fizeram com que três recuperandos do Centro de Ressocialização de Cuiabá (CRC) fossem aprovados para cursos na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Universidade de Cuiabá (Unic). Com isso, eles poderão transformar a própria vida e hoje já conseguem enxergar com esperança uma nova chance de recomeçar.

No dia a dia dividindo o horário dentro da unidade de ressocialização e o trabalho (permitido pela Justiça), Kleber Azevedo dos Santos, Zaqueu Pinheiro de Carvalho e Patrick Almada da Silva se dedicaram ao estudo e à leitura, o que resultou na boa classificação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2015.

O CRC possui biblioteca com mais de 400 exemplares, com acervo dividido entre obras jurídicas, de literatura e livros didáticos. O acesso ao local é livre e aqueles que quiserem podem, também, pegar livros emprestados na biblioteca para ler nas celas.

Aos 38 anos, Kleber, filho de professor, conta que desde pequeno estudou regularmente em casa e por isso acabou sendo um hábito, tanto o estudo, quanto a leitura. Ele começou a trabalhar cedo, porém somente agora resolveu buscar uma faculdade. Fez 631 pontos no exame e isso lhe possibilitou passar na UFMT, em segundo lugar, para o curso de Educação Física. Inscreveu-se também para o Prouni na Unic e conquistou a única vaga disponível para engenharia elétrica. É esse o curso que ele vai seguir, por ser a sua paixão.

Kleber trabalha há um ano na Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) como eletricista.  “Cometi um erro e estou aqui pagando. Como trabalho o dia inteiro e já tinha o ensino médio completo, busquei os livros da biblioteca e à noite lia por mais ou menos duas horas. Agora vou unir a prática com a teoria para ser um bom profissional”, disse.

Ele revelou que pretendia se matricular num cursinho para fazer o Enem depois que saísse do CRC, porém quisera o destino, sua dedicação e as oportunidades que lhe foram dadas dentro da unidade que seu desempenho fosse além das expectativas. “Já fiz o Enem outras vezes, mas esta foi a melhor nota que consegui. A oportunidade que o CRC oferece para melhorar de vida é para todos que estão aqui. Só sai daqui do mesmo jeito que entrou quem quiser, porque para trabalhar, buscar, aprender, tanto profissionalmente quanto intelectualmente, a oportunidade é dada”, ressaltou.

De acordo com o juiz da Segunda Vara Criminal de Cuiabá, Geraldo Fidélis, a aprovação dos reeducandos no Enem é formidável e representa uma chance de buscar recuperar a própria vida através dos estudos. Conforme o magistrado, os três reeducandos que passaram no Enem já cumpriram um sexto da pena e desempenham atividades extramuros, com a utilização de tornozeleiras eletrônicas. “A Sejudh, por meio da equipe de agentes penitenciários, vai levar esses recuperandos até a faculdade e deixá-los lá. Eles vão ter autorização de permanecer na área de inclusão que se encontra a faculdade. Depois retornam para a penitenciária, onde vão pernoitar, porque ainda estão no regime fechado”, explicou.

O magistrado salientou que o estudo é o principal instrumento de combate ao crime, uma vez que, a seu ver, o crime é fator social de pessoas que não tiveram oportunidade, que tiveram situações equivocadas na família e na escola. Com o estudo, conforme disse o juiz, eles vão poder construir uma nova vida e por meio do trabalho aperfeiçoar ainda mais o futuro, para que não mais retornem ao crime.

“Fico orgulhoso de ver que essas pessoas têm força de vontade de melhorar, de recuperar. Eles cumprem a pena sim, pelo crime que cometeram, mas já visualizam um futuro longe do crime, e isso é importante. E a universidade é um fator preponderante na reinserção das pessoas que um dia erraram, mas querem melhorar suas vidas”, enfatizou.

Segundo o diretor do CRC, Winkler de Freitas Teles, atualmente o Centro conta com sete salas de aula e 300 reeducandos estudando, com aulas de manhã e à tarde pelo Estado e à noite pelo Município. A biblioteca, espaço adequado para estudo, pesquisa e leitura, possui um acervo de livros que está à disposição dos internos e que podem ser levados para as celas. “Em 2015, 86 reeducandos fizeram o Enem. Para estudar fora da unidade é preciso ter bom comportamento, estar em regime fechado e ter cumprido um sexto da pena. Com isso é encaminhado um pedido ao juiz, que avalia esses requisitos”, explicou.

Para o reeducando Zaqueu Pinheiro de Carvalho, de 54 anos e que ficou em 15º lugar na UFMT para Pedagogia, o Enem trouxe bons frutos, como poder voltar a estudar novamente. Ele avalia como muito positiva as aulas dentro do CRC. Ele também trabalha, mas sempre que tem tempo livro vai até a biblioteca ou leva um livro para a cela.  “Tudo o que acontece na nossa vida nós temos que tirar boas experiências. Temos os professores que tiram dúvidas, orientam e estão sempre prontos a nos ajudar”.

O reeducando Estevão Galvão Rezende ajudou a organizar todo o acervo literário e pedagógico das aulas que são ministradas no CRC, além de cuidar da organização da biblioteca. Ele, que diariamente vê a movimentação de empréstimos de livros, diz que o estudo e a leitura são tudo na vida dos que ali estão, uma oportunidade que eles têm de viajar, de se transportar através dos contos, das histórias, dos romances. “A gente vê uma preocupação muito grande dos reeducandos em querer pegar livros. Aqui é um ambiente saudável, que faz com que o reeducando tenha um pouco mais para fazer aqui, ocupando sua mente”.

A pedagoga do CRC, Marlene Silva, explica que quando uma das oportunidades oferecidas dentro do Centro é a educação – e muitos dos que chegam ali não tiveram essa chance lá fora –, os reeducandos abraçam essa causa e isso ajuda no processo de ressocialização. “Essa é uma conquista histórica, um sonho que se tornou realidade. Hoje ver um reeducando na UFMT ou numa universidade particular é uma grande conquista para nós”, enfatizou.

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