Não foi. O desejo do menino caiu por terra diante do derradeiro boletim médico: o pai não resistiu aos ferimentos. Com a notícia, veio o trauma. Huan Pablo teve que enfrentar, ainda cedo, o triste sentimento de quem perde um ente querido. A ausência do pai machucava e a situação se agravava quando a criança presenciava a tristeza da mãe. O sentimento de pesar tomava conta de cada cômodo da casa.

“Eu fiquei muito abalado e a minha mãe ficou muito aperreada, triste demais. Isso nunca tinha acontecido comigo”, relembra. A tragédia desestruturou a família e lançou nuvens negras à casa dos Dantas. Nesses momentos difíceis, coube à sua irmã tomar rédeas da situação. Ajudava a mãe nas tarefas do lar e tomava conta de Huan, esforçando-se para que o caçula superasse a perda. Suas ações, no entanto, surtiam pouco efeito.

Novas melodias

 

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O atendido Huan Pablo Dantas de Oliveira, de 11 anos. Foto Arivaldo Oliveira

 

O tempo ocioso não ajudava. Sem ter o que fazer quando não estava na escola, o garoto concentrava as atenções no vazio que o pai deixara na casa. A tristeza tomava conta de cada minuto vago da criança. Então, veio a sugestão. “A amiga da minha irmã falou da Legião da Boa Vontade. Foi a partir daí que a minha vida começou a mudar”, afirma.

Inscrito no programa Criança: Futuro no Presente!, o garoto viu surgir, diante de seus olhos, novos horizontes. Dentre as atividades lúdicas oferecidas, nenhuma lhe chamou tanto a atenção quanto a Oficina de Musicalização. As aulas, oferecidas gratuitamente pela Entidade, desenvolvem a expressão corporal e inicia a criança e o adolescente no aprendizado de conhecimento teórico sobre a música.

No espaço lúdico, o menino aprendeu a tocar instrumentos de corda, como violão, e se dedicou ao estudo da flauta doce. Com acordes bem tocados, Huan impôs à própria vida uma nova melodia, encontrando um caminho para ser feliz. Fez da arte o seu porto seguro. “A música faz parte da gente. Quando escuto uma música bem tocada, sinto o que ela significa para nós. Ela muda vidas”, garante.

Um toque especial

 

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Na LBV, Huan participa da Oficina de Musicalização. Neste espaço lúdico, aprendeu a tocar violão e flauta doce. Foto Arivaldo Oliveira

 

Esse espaço, bem como as demais ações da Entidade, são pautadas pelas Pedagogias do Afeto e do Cidadão Ecumênico. A inovadora proposta, criada pelo educador Paiva Netto, é fundamentada no desenvolvimento integral do ser humano, uma vez que o enxerga em suas dimensões física, psicológica, espiritual e social.

Dessa forma, além de introduzir crianças e adolescentes ao ensinamento teórico da música, a oficina cultural da LBV coloca os atendidos em contato com repertórios que enaltecem os bons valores e sentimentos, despertando-os para a vivência de uma Cultura de Paz. As composições abordam, entre outros temas, o respeito à natureza e à vida e o companheirismo.

Tocando um futuro melhor

A ligação do atendido com a música é tão forte que ele afirma não visualizar outras possibilidades no futuro que não seja no ramo da arte. Sonha alto. Sabe que nesse caminho, é preciso muito mais que aptidão para ter sucesso. Um bom músico se constrói, sim, com talento, mas qualquer habilidade deve ser aprimorada com muita dedicação e estudo.

“Se eu virar um grande músico um dia e alguém me perguntar quem me incentivou a ir nesse caminho, vou dizer: ‘a LBV!’. Tudo que ela me ensinou pode me ajudar muito no futuro. O que eu aprendo hoje, na LBV, pode mudar a minha vida amanhã”, ressalta.

O tempo que Huan passa na Legião da Boa Vontade tem o ajudado a superar o trauma do passado e fortalecido, por intermédio da música, a sua vontade em seguir em frente. “Ela me coloca para cima, me faz esquecer a perda do meu pai. Quando estou aqui, esqueço de tudo o que aconteceu e olho para a frente. Vocês me ajudaram a superar isso. Sem a LBV, não seria nada”, finaliza.