COISAS DO CORAÇÃO

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PONTO E VÍRGULA

O homem cordial

versus

o homem cordial

Professor Sérgio Cintra Foto WEB
Professor Sérgio Cintra
Foto WEB

Sérgio Cintra

O título deste opúsculo pode parecer um tanto surreal; porém, definitivamente, não o é, como explico um pouco mais adiante, (apenas para prendê-lo à leitura). Recentemente, o governador José Pedro Taques vaticinou em uma entrevista para determinado site da capital mato-grossense: – Eu não sou um homem cordial; eu cobro; (sic) eu critico. O advérbio latino “sic” não está aí por conta do discurso verbal oral do mandatário-mor das terras de Pascoal Moreira Cabral, mas por causa do ponto-e-vírgula usado (a meu ver) de maneira equivocada pelo douto jornalista. Pode parecer preciosismo de minha parte; todavia, é meu dever de ofício, e próprio governador disse que corrige até erro de português do seu secretariado, então…

Mas deixemos o secundário e voltemos ao primordial: o que teria querido dizer José Pedro ao afirmar que não era um homem cordial. E vou além, ah! Se ele tivesse usado o termo “cordial” na perspectiva sociológica do saudoso (e desconhecido da grande maioria) Sérgio Buarque de Holanda. Creio que, ainda que inconscientemente, ele possa tê-lo feito. Contudo, a primeira leitura que se faz é está: o signo linguístico “cordial” foi usado no sentido de afável ou afetuoso. Isso porque as outras duas orações se opõem à primeira, reforçando tal interpretação.

Cabe ressaltar que o adjetivo “cordial”, do latim cordis, (coração), possui outras significações (sincero, caloroso, franco etc.), que fogem ao sentido pretendido pelo homem do Paiaguá(s). Muito menos ele o teria usado como substantivo que dá nome à bebida que faz bem ao coração. Assim, eliminando-se algumas possibilidades interpretativas esdrúxulas, resta-nos apenas as duas possibilidades do parágrafo anterior, sendo que a primeira está, na linguagem rodrigueana, óbvio ululante: o cordial foi usado pretendendo dizer que ele (o governador) não é afável ou afetuoso com seus auxiliares mais diretos.

Ainda que essa seja a interpretação mais chã e previsível, eu quereria outra, outra mais profunda, mais idealizada e, acima de tudo, mais identificada com a verdadeira transformação que tanto queremos para os rincões de Cândido Mariano da Silva Rondon. Aliás, o slogan da atual administração não é outro senão “Estado de transformação”. A outra interpretação com a qual sonho é aquela cunhada por Sérgio Buarque de Holanda quando, em “Raízes do Brasil”, ao fazer a primeira leitura do comportamento do brasileiro e afirmar: “A ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós”, escreveu. “A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios”.

A partir do instante que a sociedade (governantes e governados) compreender que o homem cordial nada mais é do aquele que age com o coração, com os sentimentos; entretanto, não necessariamente com bondade, e não discerne o público do privado, e que é, a priori, um personalista, talvez possamos iniciar o mais audacioso processo de transformação social: “Um galo sozinho não tece uma manhã:/ ele precisará sempre de outros galos./ De um que apanhe esse grito que ele/ e o lance a outro; de um outro galo /que apanhe o grito de um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzem / os fios de sol de seus gritos de galo,/ para que a manhã, desde uma teia tênue,/se vá tecendo, entre todos os galos./ E se encorpando em tela, entre todos,/ se erguendo tenda, onde entrem todos,/ se entretendendo para todos, no toldo / (a manhã) que plana livre de armação./ A manhã, toldo de um tecido tão aéreo/que, tecido, se eleva por si: luz balão. (João Cabral de Melo Neto).

Sérgio Cintra é professor de redação e presidente estadual do PTdoB.
sergiocintra@terra.com.br

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