FAQUINI

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Zé Bacuri: o implacável

Justiça é coisa séria. E, via de regra, quem ousa pensar o contrário, acaba com os burros n´água. Principalmente em questão de pensão alimentícia, é tiro e queda. Funciona melhor que relógio suíço. Por isso eu aconselho aos mais afoitos e libidinosos que, antes de saírem por aí fazendo filho sem pensar nas consequências, feito bicho do mato, contem até mil, pois esse pode ser um péssimo negócio.

No caso específico da Justiça Eleitoral, igualmente, o buraco pode ser mais embaixo, a depender do flagra ou da fundamentação da denúncia. Sabe-se de sobejo que em todas as campanhas eleitorais os trambiques são inevitáveis, assim como as maracutaias também, e, na maioria das vezes, acabam passando batido. Contudo, os recalcitrantes geralmente se estrepam, mais cedo ou mais tarde, por desrespeitar os ditames da “moça de olhos vendados”. Eu mesmo já vi muitos casos em que infratores sem deram muitíssimo mal, como aquele candidato a vereador que foi pego pagando cerveja para um renque de eleitores no boteco do Aprígio, na campanha de 2008. Denunciaram-no dizendo que o traste estava cevando voto com a cevada da cerveja.

Em Pontes e Lacerda aconteceu um fato no mínimo hilário. Certo empresário, do tipo gente fina, solidário e bondoso com seus colaboradores, todo final de mês, além do salário, doava uma cesta básica a cada um dos seus empregados. Isso era de lei na firma do Santana: uma cesta básica junto com o envelope de pagamento todo dia 30 do mês. Alguns ombreavam a tal cesta, outros amarravam-na na garupa da bicicleta, outros davam outro jeito, que pra levar comida pra casa o bicho pobre tem uma disposição medonha e uma alegria que não é mole.

O guarda noturno Gumercindo, todavia, sempre tratava de organizar uma carona qualquer pra transportar a pequena carga de comida até sua casa, visto que morava bem fora da cidade, longe demais, portanto, para arcar com aqueles mais de 20 quilos de gororoba.

Naquele dia o Guma estava mesmo de pouca sorte no quesito “encontrar carona”, pois, carro para aqueles lados aonde morava não aparecia nem por reza braba. Já era perto da uma e meia da tarde e, naquele calor de fritar ovos na calçada, a margarina barata já escorrendo da embalagem e melando o resto dos produtos na cesta-básica quando, finalmente, encostou uma C-10, velha, toda coberta de adesivo de um certo candidato. Aí, começaram os entendimentos entre as partes, o Guma e o motorista (cabo eleitoral):
– Ocê caiu do céu, Totonho. Vais me dar uma carona esperta. Com isso fatura meu voto, o da Maria Isabel minha mulher e, de quebra, o da velha Gertrudes, minha sogra, aquela interesseira.
– Acho melhor não, companheiro. Alguém pode julgar que estamos distribuindo cesta básico pra eleitor e aí deusmelivre, vai surgir vivente do oco da taboca e chover gentalha lá no comitê, atrás de cesta básica, credo O deputado me mata!!
– Bobagem, criatura. Quem vai ver que tem uma cesta-básica dentro da caminhonete. Cubro-a com minha camisa, e pronto.
– Ta legal, mas seja rápido que estou com pressa.

Ocorre que, no dia anterior, havia sido registrada na Justiça Eleitoral da Comarca uma denúncia de que alguém estaria distribuindo cestas básicas na calada da noite, pra caterva da periferia, em troca de promessa de voto.

Uma equipe da polícia, à paisana, pesquisava os rastros dos infratores. Lá no final daquela rua erma e esburacada, já no morrer do arrebalde, viram um sujeito descendo de uma C-10, velha, toda coberta de propaganda eleitoral, com uma cesta básica nas costas. O tempo fechou. Agora o diálogo era com os meganhas:
– Ocês dois tão presos, em nome da Lei.
– Mas, presos por quê?
– Crime eleitoral dos grandes.
– Mas que crime, cês tão malucos?
– Calem a boca… Pegamos ocês no flagra. Recebemos denúncia anônima, e desde ontem estamos na pista d´ocês. Ocê, da caminhonete, vai preso por corrupção ativa e o senhor, por corrupção passiva, ou seja, um preso por doar cesta básica em troca de voto e outro preso por receber cesta básica em troca de voto, seus cretinos. Entrem na viatura e calem a boca!
– Mas… Não é nada disso, seu policial…
– Calem a boca ou entram no cacete, seos malandros! Caíram feito patinhos, heinnn!

Sei que até hoje Guma e Totonho estão de mal e se odeiam de morte por conta dessa trapalhada de transportar cesta básica em quadra de campanha. Guma foi demitido da firma e o Totonho perdeu o cargo (fantasma) que tinha na Assembléia (assessor para assuntos aleatórios do deputado Malaquias) e, durante anos os dois tiveram tremenda dor de cabeça com a Justiça. Brinca com a lei, brinca!
(Qualquer semelhança entre as ficções narradas nesta coluna e algum fato real, é mera coincidência).

 

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